Vi um anúncio de emprego. A vaga era de Gestor de Serviços Gerais. E a empresa exigia que os interessados possuíssem sem contar a formação superior, liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem HANDS ON.
Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía essa variada gama de habilidades, o salário era de 800 reais. Ou seja, uma brincadeira. Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Ao contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego. A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm os problemas da super qualificação, que é uma espécie do lado avesso do salário brincadeira....
Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fatima conseguisse ser admitida como gestora de serviços gerais...
E um de seus primeiros clientes fosse o seu Jorge, Gerente de Marketing.
Seu Jorge: -- Fatima, eu quero três cópias deste relatório.
Fatima: -- In a hurry!
Seu Jorge: -- Saúde.
Fatima: -- Não, Seu Jorge, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que aempresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?
Seu Jorge: -- E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
Fatima: -- O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.
Seu Jorge: -- Não, não.. Cópias normais mesmo.
Fatima: -- Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 50% das cópias que tiramos.
Seu Jorge: -- Fatima, desse jeito não vai dar!
Fatima: -- E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.
Seu Jorge: -- Como assim?
Fatima: -- É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. Econsidero isso um desperdício do meu potencial energético.
Seu Jorge: -- Olha, neste momento, eu só preciso das três cópias.
Fatima: -- Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
Seu Jorge: -- Futuro? Que futuro?
Fatima: -- É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui eainda não aconteceu nada.
Seu Jorge: -- Fabiana, eu estou aqui há 20 anos e também não me aconteceu nada!
Fatima: -- Sei. Mas o senhor é hands on?
Seu Jorge: -- Hã?
Fatima: -- Hands on....Mão na massa.
Seu Jorge: -- Claro que sou!
Fatima: -- Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que euvou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que meprometeram quando eu fui contratada.
Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:
1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas.
2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.
Alguém ponderará com justa razão que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Pessoas superqualificadas não resolvem simples problemas!
Um dia um grupo de Marketing e Vendas de uma empresa que eu trabalhava, foi visitar uma de nossas fábricas em Pouso Alegre cidade de Minas Gerais, no meio da estrada, a van da empresa pifou. O jeito era confiar no especialista, o Vieira, motorista da van. E aí todos descobriram que o Vieira falava inglês, tinha informática, energia e criatividade e estava fazendo pós-graduação em Finanças, só que não sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do carro, passou um sujeito de bicicleta.
Para horror de todos, ele falava "nóis vai" , "nóis é" e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida.
Para horror de todos, ele falava "nóis vai" , "nóis é" e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida.
- Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as Empresas modernas torcem o nariz:
O QUE É CAPAZ DE RESOLVER, MAS NÃO DE IMPRESSIONAR.
Pense nisso
Jorge Vieira